José Mindlin tinha mais de 40 mil exemplares em sua biblioteca
O paulistano José Ephim Mindlin era um leitor voraz. Calcula que tenha lido, em vida, mais de 6 mil livros. Muito? Pouco para ele, que dizia que gostaria de ter vivido 300 anos para, assim, conseguir ler toda sua coleção. José Mindlin foi dono da maior biblioteca particular do país, composta por cerca de 50 mil títulos, doada para a Universidade de São Paulo. Muitos dos autores que ele guardava em suas estantes tornaram-se seus amigos, como João Guimarães Rosa, José Saramago, Carlos Drummond de Andrade e Monteiro Lobato.
Terceiro de quatro filhos de imigrantes judeus russos, José Mindlin foi jornalista aos 15 anos, advogado e empresário - montou a gigante Metal Leve, fabricante de peças automotivas. Na Faculdade de Direito do largo São Francisco, em São Paulo, conheceu seu grande amor, Guita, com quem viveu até a morte dela, em 2006. Do casamento de 68 anos, resultaram quatro filhos, 12 netos e oito bisnetos. Com Guita, dividia a paixão pelos livros - ela especializou-se em restaurar as aquisições raríssimas de Mindlin, pelas quais ele já fez verdadeiras loucuras. É notória, por exemplo, a história da compra da primeira edição de O Guarany (assim mesmo, com "y"), de José de Alencar. O bibliófilo ficou 20 anos atrás do livro e, por ele, fez duas viagens internacionais.
Com o apoio da família, em 2006 José Mindlin doou parte de sua biblioteca, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Universidade de São Paulo, com 18 mil títulos sobre o Brasil, publicados a partir do século 16. No mesmo ano de 2006, tornou-se, como muitos dos nomes que compõem sua biblioteca, um imortal - já era membro da Academia Paulista de Letras desde 1999. Lançou seu quarto livro, Reinações de José Mindlin, memórias de sua infância. Antes de mandá-lo à editora, submeteu-o à prova da netinha de 9 anos, Ana.
A entrevista a seguir foi concedida à revista Aventuras na História e publicada em abril de 2008.
Como começou seu interesse por livros?
José Mindlin: Uma tia me deu o primeiro título de minha coleção brasiliana, História do Brasil, do frei Vicente Salvador [quando tinha 13 anos]. Na pequena biblioteca dos meus pais, havia livros da época, o almanaque de O Tico Tico e clássicos russos, franceses e ingleses. Eu me tornei um leitor voraz. Meu irmão mais velho, Henrique [mais tarde, um arquiteto importante], também gostava de ler. Quatro anos mais novo, eu lia os mesmos livros que ele. Até hoje me entusiasmo com Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, com Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Ah, sim, eu lia para minha mãe os romances de Júlio Verne.

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